O minimalismo de cada um

O estilo minimalista propõe uma redução ao mínimo necessário. Ele surgiu no século passado influenciando sobretudo as artes plásticas e o design, e só mais recentemente o termo tem sido empregado para falar de estilo de vida.

Eu não sei bem quando comecei a prestar mais atenção nessa ideia, mas acho que ela bateu com força em 2015, quando passei a seguir o blog do casal Eduardo e Mônica. Um ano antes eles tinham largado tudo para viver como nômades pelo mundo e, no meio dessa aventura, escreviam posts muito inspiradores não só sobre os lugares incríveis que conheciam mas também sobre a vida minimalista que levavam.

Também em 2015, trabalhei na produção do livro Essencialismo, que fala da busca por menos, só que com uma abordagem mais voltada para o trabalho. Era como se as ideias fossem aos poucos se somando e me deixando mais curiosa sobre esse outro modo de levar a vida. E, se em determinado momento o que eu mais consumia na internet eram blogs sobre moda, fui, sem perceber, substituindo-os pelos textos sobre vida minimalista.

Em 2017, percebi que a “onda minimalista” era bem maior do que eu imaginava. Foi quando assisti na Netflix ao filme Minimalism: a documentary about important things (Minimalismo: um documentário sobre as coisas importantes), lançado em 2016.

De repente tava todo mundo falando sobre isso. A proposta de uma vida com menos excessos e mais experiências estava de fato conquistando adeptos pelo mundo todo. Joshua Millburn e Ryan Nicodemus, os minimalistas do filme, dizem ter alcançado mais de 20 milhões de pessoas pelo mundo por meio de seus blogs, livros, podcasts e do próprio documentário.

No Brasil o assunto pode ter ganhado mais força nos últimos anos até por conta da crise econômica, que nos obrigou a repensar muitos hábitos de consumo. Mas pra muita gente acabou sendo mais que uma necessidade ou tendência passageira e, em vez disso, virando uma opção de vida:

Qualidade em vez de quantidade.

[E aqui, mais uma vez, faço aquela ressalva: isso no caso de quem tem opção! Para muita gente “viver com o mínimo” é uma realidade imposta, e não um luxo.]

De qualquer maneira, apesar de muitos, como eu, terem simpatizado inicialmente com o minimalismo por uma questão de estética ou de melhorar a organização, os benefícios podem se estender por praticamente todos os âmbitos da vida.

Em primeiro lugar, optar por viver com menos acende uma luzinha sobre o consumo consciente. A partir do momento em que você se propõe a reduzir todos os aspectos da vida ao essencial, ao que realmente tem mais importância para você, tende naturalmente a se livrar dos excessos que roubam seu tempo e não dão o devido retorno. Por exemplo, depois que eu fiz a mágica da arrumação da Marie Kondo e vi quanta coisa inútil tinha acumulado, passei a pensar duas vezes antes de sair comprando outros itens.

Uma consequência imediata disso é economizar. Sim, porque tudo que compramos e está agora esquecido num cabide ou numa prateleira custou dinheiro, fora o tempo que levamos trabalhando por ele. Então, se eu não estou precisando de mais uma calça jeans, não compro. Se meu celular me atende bem, não preciso trocar pelo último lançamento. Meu cartão de crédito agradece.

Outra consequência é reduzir o impacto ambiental. Cada objeto que adquirimos precisou de matérias-primas (renováveis ou não) e energia (limpa ou não) para ser fabricado. E, depois de ser utilizado (ou de ficar encostado num canto pegando poeira), vai gerar outra preocupação ao ser descartado — é de material reciclável? Tem chance real de ser completamente reciclado? Vai poluir as águas e o solo? Se eu deixo de levar algum produto supérfluo pra casa, estou ajudando a preservar os recursos naturais do planeta.

Em um mundo que prega a ostentação como ideal de vida, ter essa consciência — diariamente — exige esforço.

Nos grupos do Facebook sobre minimalismo vejo muita gente comentar sobre um outro aspecto interessante: os relacionamentos. Parece que, nesse movimento para nos cercarmos do que nos faz bem e nos livrarmos do que só rouba dinheiro, tempo e atenção, muitas “amizades” vão ficando pelo caminho também. O famoso “Se não soma, some!”.

Eu sempre desconfio das posturas radicais demais, mas confesso que já começo a sentir esse efeito, sim. Se antes eu me forçava a procurar determinadas pessoas, mesmo que não me identificasse mais tanto com elas ou saísse mais incomodada que feliz do nosso encontro, hoje me preservo mais.

E também tem gente exercitando o minimalismo na alimentação. Se podemos comer menos e ainda assim viver com saúde, será que não seria uma questão a se pensar? Ou aí já é pegar pesado?

Uma proposta minimalista pode abarcar todos os aspectos da nossa vida ou só alguns. Como acontece com toda tendência, é importante não achar que ela é a solução para todos os males e que não há felicidade fora dela. Além disso, para ser eficaz, essa proposta deve ser personalizada e atender aos seus interesses, que pode não ser os mesmos que os meus, e tudo bem.

Apesar de me identificar demais com uma vida minimalista, fiz questão de incluir o “projeto” no nome do blog, porque é exatamente o que ele é para mim: algo em desenvolvimento, em construção. Sigo aprendendo um pouco mais a cada dia com as minhas leituras e aplicando aos poucos no meu dia a dia, de uma maneira que me deixe confortável e não me gere mais estresse, ou teria justamente o efeito contrário ao que estou buscando.

A minha vida minimalista envolver ter menos coisas, consumir de forma consciente, viver em um espaço menor, trabalhar em projetos que tenham significado para mim, me cercar de boas energias e ter mais tempo para o que me faz feliz.

E a sua?

Encontre um minimalismo que funcione para você. Que não gere incômodo, mas que o liberte levando em consideração seus valores, desejos, paixões e pensamento racional. (…) Você começará a remover as coisas desnecessárias de sua vida. E, quando fizer isso, encontrará espaço para intencionalmente promover as coisas que mais valoriza e eliminar o que faz você desviar delas.

Joshua Becker, do blog Becoming Minimalist

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