O importante é começar

Quando nos identificamos com um estilo de vida minimalista, a primeira coisa que conquistamos não é serenidade. Pelo contrário! De cara, passamos a questionar todos os nossos hábitos e repensamos todas as nossas escolhas. É um trabalho para a vida inteira, mas sem dúvida tende a ser mais difícil no início e a ficar mais fácil com o tempo.

Se você tem o seu canto montadinho em torno da sua rotina, não importa se mora sozinho, se divide a casa com um parceiro ou se mora com os pais, em geral a primeira coisa que dá vontade de fazer é um destralhe completo. Você pega os ensinamentos da Marie Kondo, respira fundo e começa.

Foi assim comigo. E não foi uma vez só, mas várias, num looooongo processo. Comecei pelas roupas. Separei o que não queria mais. Depois fiz de novo e de novo. E então fui percorrendo os outros espaços da casa. Só assim percebi como tinha comprado coisas de que não precisava, como tinha gastado dinheiro à toa, como tinha arrumado mais trabalho para mim — fosse limpando, arrumando ou agora na hora de me livrar daquelas coisas.

E com cada etapa concluída, as dúvidas só aumentavam. Será que vou precisar mesmo daquilo que mantive? Será que não é melhor comprar uma coisa boa e me desfazer de três ruins? Será este o melhor material mesmo? O mais durável? O mais sustentável? As perguntas não param mais…

Mas nesse mar de incertezas, uma certeza me atingiu com tudo:

Como a vida pode ser mais leve quando a gente tem menos coisas com que se preocupar.

E aí veio o sonho: e se um dia eu conseguir ser realmente minimalista? E se a minha vida couber numas poucas malas que eu possa levar para qualquer lugar sem grandes estresses? E se tudo na vida puder ser mais simples e descomplicado?

Depois que tomei consciência desse desejo, dessa certeza absoluta, as coisas foram ficando mais claras. Fui moldando a minha vida em torno dessa nova crença e desse modo de pensar.

Pra que comprar mais esse enfeite se do jeito que está já está bom? Pra que comprar esse tênis da moda se já tenho outros dois que vou usar nas mesmas ocasiões? Pra que investir nesse curso se não é mais isso que eu quero fazer da vida? Pra que me preocupar tanto em perder uma amizade se a pessoa não tem nada a ver comigo?

Não estou dizendo que está sendo fácil. Nenhuma grande mudança é essa moleza. Mas está fazendo sentido, como há muito tempo não fazia.

Quando você se vê fazendo coisas que vão totalmente contra aquilo em que acredita, aí sim é difícil, aí sim não faz sentido, aí sim te deixa confuso. Essa desconexão entre aquilo que está gritando dentro da gente e o que fazemos de fato, dia após dia, pode nos deixar doentes, deprimidos, sem forças.

Então, hoje eu quero fazer um convite. Pare um segundinho para pensar e pergunte a si mesmo:

O que é que você pode fazer hoje para alimentar a sua paixão, para reafirmar os seus valores e para colocar você no caminho daquilo que realmente quer para a sua vida?

Hoje estou rodeada apenas por aquilo que realmente amo – sejam coisas ou pessoas –, pois aprendi a selecionar somente o que é especial.

Marie Kondo, do livro A mágica da arrumação

Minimalistas e ricos?

Antes de sair da editora, em geral era eu quem coordenava a produção editorial dos livros do Gustavo Cerbasi. Sempre tive interesse por economia e finanças pessoais, então era um trabalho muito prazeroso — e fácil, já que ele escreve muito bem.

E qual não foi minha surpresa ao saber que o livro novo dele tinha tudo a ver com esta nova fase da minha vida! A riqueza da vida simples, lançado em maio, explica como o estilo de vida minimalista pode ser um caminho para a independência financeira.

Ok, ainda não cheguei à independência financeira de fato…

… mas sou praticamente um case vivo dessa proposta!

Quando eu era criança e ganhava uma micromesada, tipo 5 reais por mês, eu conseguia juntar aquele valorzinho durante alguns meses para comprar algo que realmente queria e que quase sempre iria durar bastante (ainda tenho meu minigrampeador branquinho que comprei nos anos 1990 e continua funcionando lindamente!).

Depois de dois anos sem conseguir passar para Comunicação numa universidade federal, tive que arrumar um emprego. Eu ganhava o salário mínimo do comércio, uns 180 reais por mês. Como ainda não tinha desistido da faculdade, poupava parte do salário para fazer um bom cursinho. Depois de 6 meses, eu não tinha o valor para bancar a mensalidade, é claro, mas paguei à vista todas as apostilas e o material que usaria ao longo do ano, além da inscrição em alguns dos vestibulares.

Então passei e fui morar no Rio, dividindo um apartamento com mais 5 pessoas em um bairro longe da faculdade, porque era o que dava pra bancar. Eu levava comida de casa e recebia 50 reais por semana dos meus pais para as despesas do dia a dia, ônibus, xerox, lanche, etc. E ainda devolvia uma parte quando a semana acabava.

Só eu pra fazer isso…

Quando me formei, não encontrava proposta de trabalho que pagasse mais que a bolsa do estágio e o que ganhava com frilas, então continuei estagiando, porque tinha começado uma segunda faculdade. Só que agora eu tinha que ir pra Niterói, então precisei procurar um novo apartamento. Como agora iria morar sozinha, bateu a insegurança. Será que iria conseguir me bancar só com estágio e frilas? Consegui, e sem apertos.

Lembro bem de quando abri a primeira conta no banco e tive direito a um cartão de crédito. Meu limite era de 300 reais! Era difícil não passar desse valor, mas o pior de tudo foi quando esqueci de pagar a fatura… Como eu não sabia como funcionava, deixei passar para pagar no mês seguinte, mesmo tendo o dinheiro. Quando veio a fatura eu quase caí pra trás. Como assim tinha que pagar aquilo tudo de juros e multa?

Não não não! Nunca mais! (leia no estilo Scarlett O’Hara)

E desde então não atrasei mais. E olha que pago tudo que posso no cartão.

Ok, não tive um início abastado nem nada, então tenho um pouco de mérito nisso. Mas também não tive nenhum grande imprevisto nem outras pessoas para sustentar nesse tempo, o que é a realidade de muita gente, talvez a da maioria das pessoas. O que quero ressaltar aqui é que eu só cheguei ao ponto de poder abrir mão do meu salário fixo e tentar uma nova vida ganhando menos porque eu soube me privar de algumas coisas para focar outras. É o que venho fazendo desde criança!

Voltando ao Cerbasi, o modelo de construção da riqueza apresentado no novo livro se baseia em fazer escolhas sustentáveis — no sentido de preservar a natureza também, mas sobretudo no sentido de coisas que vão se sustentar com o tempo, como decisões ponderadas que contribuam para o futuro que você deseja alcançar.

É poupar hoje para usar depois com mais propósito.

Todo mundo tem algum custo que pode reduzir, uma despesa que pode eliminar, uma bobagem de que pode se libertar. Pode ser migrar para um plano mais enxuto de celular, comer menos vezes fora, ir menos ao salão, usar menos o carro (ou nem ter carro), comprar livros em sebos, trocar coisas, pedir emprestado… A lista é infinita.

A ideia é manter o que te faz mais feliz, de acordo com seus valores pessoais, e com o que vai te levar aonde quer chegar. O que não se enquadrar nisso é supérfluo e não vai fazer falta no longo prazo.

Felizmente, a economia compartilhada está em alta, então não faltam alternativas para ajudar você a comprar menos e usar mais.

Mais experiências, menos posses!

Veja o exemplo de aplicativos bem-sucedidos como Uber, BlaBlaCar, Tem Açúcar?, Airbnb, Couchsurfing, DogHero e os milhares de grupos de trocas no WhatsApp e no Facebook. Fora os OLX, Mercado Livre e Enjoei da vida, já que outra tendência é valorizar os produtos usados para economizar dindim e preservar recursos naturais. (Vendi várias coisas do apê no Rio anunciando em grupos de Facebook e aqui comprei uma lavadora maravilhosa por menos da metade do preço de uma nova.)

Você não tem que abrir mão da qualidade de vida para ser rico. A ideia não é essa! Mas pense bem para onde está indo seu suado dinheirinho, porque, como diz o Cerbasi, é o nosso consumo, e não a nossa renda, que determina se teremos ou não dificuldades financeiras, se conseguiremos ou não realizar os nossos projetos.

Status é você comprar coisas de que não precisa, com um dinheiro que não tem, para mostrar a pessoas de quem não gosta que você é alguém que nunca será.

Gustavo Cerbasi, do livro A riqueza da vida simples

P.s: Este post ficou muito grande e eu ainda tinha mais a dizer. Se quiser trocar uma ideia ou dar uma contribuição, fica à vontade. Deixa uma mensagem aqui ou me encontra no Facebook ou no Instagram.

Uma participação muito especial

Trago boas notícias!

Além de falar sobre o nosso projeto de vida minimalista e compartilhar meus insights e reflexões sobre o tema, agora vou postar também textos de um cara muito gente fina chamado Joshua Becker, do blog Becoming Minimalist.

Como eu disse em outro post, comecei a pesquisar mais sobre vida minimalista depois de acompanhar a saga pelo mundo dos gaúchos Eduardo e Monica. Nessas pesquisas, encontrei poucos blogs em português e muitos em inglês. Passei a seguir vários, mas o do Joshua acabou se tornando meu preferido.

Além de ser muito simples e direto, ele passava uma calma, uma serenidade incríveis. Eu sentia a leveza de uma verdadeira vida minimalista e conseguia acreditar que chegar lá era possível. As palavras dele ressoavam em mim de uma maneira tão familiar que parecia que eram escritas para mim ou por mim! (Hahaha… me achando.) Queria muito compartilhar aquele conteúdo com as pessoas, mas sabia que nem todos os meus amigos iriam ler seus textos em inglês.

Há exatamente um ano, decidi entrar em contato com ele e pedir autorização para publicar os artigos dele em português. Eu não tinha blog e nem sugeria onde eles seriam compartilhados, mas queria oferecer meus serviços assim mesmo. Ele logo me respondeu e disse que tinha interesse, e eu fiquei ultrafeliz! O blog tem mais de 1 milhão de leitores!

A coisa acabou não acontecendo naquele momento por vários motivos, mas tudo tem a sua hora, certo? No próximo post daremos início a essa parceria, e espero que vocês curtam tanto quanto eu. ❤️


  • Para conhecer um pouco melhor a história dele, dá uma olhada neste vídeo que o Joshua gravou para o Brasil ano passado, quando foi convidado para uma conferência em São Paulo.
  • Ele já tem vários livros publicados e os principais são estes: The More of Less, The Minimalist Home e Simplify, que você pode receber de graça por aqui.

Vida nova — de novo

Eu sabia que ia levar tempo até postar de novo, mas não imaginava que seria tanto! Mais de um mês se passou desde o último post e nesse intervalo rolou uma nova mudança.

Tínhamos alugado um flat na Pipa por dois meses, de maio a julho. E quando esse período acabasse, iríamos para um cantinho definitivo. E assim foi. Só que esse nosso cantinho definitivo acabou sendo em João Pessoa.

Viemos para o Nordeste em busca de uma vida mais tranquila, e Pipa, nosso lugar favorito no mundo, era nossa primeira opção. Mas mesmo antes da viagem também tínhamos cogitado morar em João Pessoa, já que fica só a duas horas de Pipa e é um lugar famoso pela qualidade de vida.

Foi uma decisão racional. Ser turista na Pipa é a melhor coisa. Mas morar lá, trabalhar, ter uma rotina mesmo, não estava parecendo muito fácil. E depois de algumas vindas a JP, conhecendo os bairros e procurando imóvel, sentimos que seríamos mais felizes aqui.

Depois de uma cansativa busca, encontramos uma pequena joia. Pense num apartamento minimalista! Um espaço muito bem aproveitado de apenas 33 metros quadrados, todo mobiliado. Até hoje eu fico impressionada ao pensar em como esse tamanho nos atende perfeitamente. Cheio de armários planejados, nada fica fora do lugar. Limpamos tudo num instante e não nos sentimos nem um pouco numa caixinha de fósforo.

A ideia sempre foi encontrar um imóvel mobiliado, até porque vendemos todas as nossas coisas no Rio e não queríamos comprar tudo de novo, tanto pela questão da grana quanto para não ter que carregar uma porção de tralhas caso a gente se mude de novo. E ainda é uma opção bem mais sustentável, porque compartilhamos os bens que outra pessoa já tinha comprado, sem usar mais recursos do planeta. Nosso apê no Rio era quase três vezes maior, portanto nossos gastos com manutenção também eram maiores. Dois adultos ocupando um espaço enorme sem a menor necessidade…

Uma das coisas de que mais gosto aqui é do trânsito. Morro de rir quando reclamam da hora do rush. É quase inexistente em comparação com o que eu enfrentava diariamente no Rio e até mesmo em Petrópolis! A gente mora quase na esquina da principal rua do bairro e mal escuta barulho. Acho incrível pegar a rua paralela à principal e não ver carro nenhum na hora de atravessar. É uma coisa maravilhosa e espero que continue assim por muito tempo.

Com toda a correria de mudar, resolver pendências e burocracias, etc., mal consegui ir à praia por aqui, só mesmo para caminhar no calçadão. (Aliás, eu preciso dizer que adoro um calçadão! Nos meus sonhos de lugar perfeito para morar eu sempre visualizo um, tem que ter.) Mas agora as coisas estão mais tranquilas e em breve iremos conhecer melhor esse litoral lindo.

Nós nos despedimos da Pipa na semana passada com uma inevitável dorzinha no coração. Foi uma experiência maravilhosa, um privilégio ficar tanto tempo naquele paraíso, curtindo as praias, a noite, os novos amigos. Mas não foi um adeus, e sim um até breve, porque em duas horinhas chegamos lá e mês que vem tem o Festival de Jazz!

Foi um mês bem doido, mas aos poucos tudo está se encaixando. Eu reclamo da loucura da vida no Rio, mas estava acostumada a resolver tudo rapidamente, e aqui não é assim. Por exemplo, depois de desistir de encontrar nas lojas o varal que eu queria, pedi pela internet, e o prazo era de 15 dias úteis… zzzz… Pois é. Temos que tirar o pé do acelerador e apreciar a vista.

E não foi exatamente para isso que viemos?

Riqueza é não faltar o que é importante para nós. Minimalismo é ter abundância do que mais precisamos.

Gustavo Cerbasi, do livro A riqueza da vida simples

Vaidade ou publicidade?

uma tampa de esmalte dourado apoiada na horizontal sobre uma superfície reflexiva

Outro dia vi a Fe Cortez, idealizadora do movimento Menos 1 Lixo, dizendo no Instagram que não pintava as unhas havia um ano. Isso me fez lembrar um pouco de todos os questionamentos que já me fiz sobre minimalismo, sustentabilidade e cuidados pessoais.

Não ouso dizer que não sou uma pessoa vaidosa. Na época do colégio eu era daquelas que penteava o cabelo e passava batom na hora do recreio. (Pera aí, daquelas não — acho que eu era a única mesmo.) Chorei quando tinha uns 12 anos e o cabeleireiro fez um corte horroroso, quase Chitãozinho & Xororó.

Sim, eu gosto de me arrumar e me sentir bonita. Mas tem certas “convenções” que nunca curti e de que estou me libertando de vez. Fazer a unha, por exemplo. Cara, que porre! Minhas unhas das mãos parecem um papel, crescem todas quebradiças, e a cutícula é superfina. Quando comecei a ir à manicure, parecia que pagava pra sofrer. Quase sempre saía com algum machucado. Tinha que achar uma profissional supercuidadosa e só fazer com ela. Mas, como nunca gostei do processo, eu ia no máximo uma vez por mês, ou quando tinha algum evento.

Aí fui espaçando mais as visitas à minha querida Irene. E também a não querer esmalte de cor forte, mas de alguma que deixasse aparecer menos que eu estava com o esmalte lascado (ah, sim, porque pra completar comigo o esmalte nunca durou mais que dois dias). Aí passei a só fazer francesinha. E depois me enchi de vez: só base. Ah, e adivinhe o que já fiz nas unhas desde que cheguei aqui? Nada! Só cortar e lixar.

E tô amando.

Vendo a explicação da Fe Cortez para não pintar mais as unhas, me identifiquei totalmente. Tipo, pra quê? Pra gastar dinheiro? Pra colocar produtos químicos pesados nas minhas unhas já frágeis? Pra pegar uma doença? Pra contribuir pra poluir o planeta? Pra atender algum padrão social? Pra agradar a quem?

Quando a gente para pra pensar nesses hábitos que parecem tão naturais mas que no fundo são impostos de alguma forma por indústrias bilionárias, eles passam a não fazer mais sentido. Se eu não gosto e não sinto falta, realmente não tenho por que fazer isso. Resistência!

E é também por isso que não pinto o cabelo. E sim, tenho uma porção de cabelos brancos já. Eu comprava tonalizante e o negócio ficava lá no armário até quase vencer e eu dar para outra pessoa. Cheguei a comprar henna, por ser mais natural, mas não durava muito e eu achava que não valia o trabalho, além de estar gerando um novo tipo de lixo na minha vida. Mais uma vez: pra quê? Pra quem? Sem uma boa resposta, parei também.

Aliás, foi mesmo por causa dos cabelos que comecei a ganhar um pouco de conscientização em torno dos cosméticos. Há alguns anos descobri algumas técnicas mais naturais para tratar os fios e passei a seguir o low poo, que é optar por produtos mais suaves e menos poluentes, ou seja: sem sulfato, petrolato, parafina, parabenos e óleo mineral. Além de aceitar meus cachos e cuidar melhor deles, jogo menos porcaria nas águas que vão parar nas estações de tratamento (na melhor das hipóteses) ou direto nos rios (na pior).

Muita gente já radicalizou e só usa produtos naturais nos cabelos, mas infelizmente ainda não cheguei a esse nível. A juba é cheia e, se eu não tacar creme, fica parecendo uma vassoura. Seguindo a ideia do “minimalismo de cada um”, ainda preciso disso para me sentir bem comigo mesma enquanto não descubro uma forma melhor e mais sustentável.

Trabalhar em casa ajuda a gente se libertar de algumas necessidades que podem ser consideradas fúteis. Maquiagem é outro bom exemplo. Há muito tempo que eu só uso filtro solar com cor e batom. Não vejo mais necessidade de tanta “falsa perfeição”. Antes da mudança vendi um estojão de maquiagem completo da Sephora que eu pouco usei e joguei um monte de coisa fora que já estava vencida.

E perfume, gente? Nossa, eu sempre amei perfume. Mas a verdade é que é mais uma coisa dispensável. Estou poupando os que ainda tenho e pensando seriamente em não comprar mais. Já não uso mais desodorante antitranspirante, principalmente pelo mal que pode fazer à saúde. Caramba, quando é que suar deixou de ser normal? Optei pelo leite de magnésia já tem um tempo e não penso em voltar atrás. Não preciso ter um cheiro artificial na suvaca pra ser feliz!

Parece que a indústria da beleza vai nos escravizando e nem percebemos. Quantos procedimentos, produtos fabulosos, novas invenções! Quanto dinheiro jogado fora! Sim, você já parou para pensar em quanto gasta com “beleza” todo mês? Em tudo que poderia fazer com esse dinheiro acumulado em um ano?

Enfim, acho que vale a reflexão. O assunto é complexo e polêmico, cada pessoa pensa de um jeito, as opções são inúmeras e ainda tenho muito que aprender, admito. Mas já me sinto capaz de dar alguns passos rumo a uma vida mais sustentável e achei que poderia compartilhar algumas descobertas com quem se interessa pelo assunto.

Tem gente superavançada nessa área e recomendo fortemente que sigam o trabalho da Cristal Muniz, do Um ano sem lixo, e da própria Fe Cortez, que mencionei no início.

E querendo trocar ideias, fiquem à vontade. Melhor que conversa de salão! 😉

“Meu olhar em festa se fez feliz”

Desde a primeira vez que pisamos na Pipa, naquele distante outubro de 2013, vivemos um caso de amor com este lugar — e sem data pra acabar. Vou contar como tudo começou.

Depois de decidir onde passaríamos as férias daquele ano e de muita pesquisa, consegui ótimas passagens para Noronha, usando apenas milhas (bons tempos em que se conseguia ir pra lá com 10 mil pontos). Então, já que estávamos pelo Nordeste, achei que seria bom prolongar a viagem e marquei a volta por Natal, para ficar cinco dias na Praia da Pipa e dois na capital antes de voltar ao Rio.

Vivemos uma semana inesquecível em Fernando de Noronha, o lugar mais extraordinário do Brasil na minha opinião. Nenhuma foto ou filmagem faz justiça ao que você encontra lá e vê com os próprios olhos. Nada te prepara para aquelas paisagens. São praias de uma beleza absurda, total tranquilidade, harmonia e muito respeito à natureza.

Tá batido, é cafona demais, mas é o melhor conselho que vou te dar hoje: Noronhe-se. Não arrependa-se. E depois me conte-se.

Conhecemos pessoas ótimas e percebemos como é bom viver desarmado, sem medo de nada nem ninguém. Talvez hoje eu tivesse um pouco de medo dos tubarões (aquele caso do rapaz que teve parte do braço arrancada aconteceu em 2015), mas naquela viagem eu praticamente ia atrás deles, tentando fotografar uns pequenos que passavam por mim na Baía do Sueste.

Ficamos realmente tristes na hora de ir embora. Aí você imagina: o que pode superar aquilo tudo que vimos por lá? Nada, né? Não tem como.

Então pegamos o voo pra Natal e o transfer pra Pipa. Chegamos já à noitinha e o motorista entrou na ruazinha principal. Eu olhava pra um lado e pra outro e pensava: Que lugar é esse? Uma rua de mão única, com lojinhas e restaurantes de fachadas simples, muita gente andando sem pressa, música ao vivo em vários cantos. Me bateu alguma coisa por dentro.

É aqui. Achei o meu lugar.

Eu não tinha visto nem sequer uma praia, mas sabia que tinha algo muito especial ali, não me pergunte como nem por quê. O mais incrível é que eu não falei nada pro meu marido, sentado ao meu lado no banco do carro. Mas conversando depois ele me contou que sentiu a mesma coisa.

Só no dia seguinte faríamos os passeios e descobriríamos as praias, os golfinhos, as falésias, as lagoas, o pôr do sol, a gente, os camarões, os sorvetes, a nossa banda de rock favorita, a vibe. Foi uma paixão tão forte que acabamos cancelando as diárias em Natal e prolongando a estadia na Pipa até o dia do voo de volta. (Aliás, só fomos conhecer Natal na terceira vez que viemos pra esses lados.)

Eu sempre quis sair do Rio e me imaginava morando praticamente em toda cidade legal que conhecia ou que via pela TV. Já pensei em ir pra Paraty, Floripa, Penedo… Mil lugares fora do país também. Eu sabia que precisava dessa experiência. Mas foi depois de conhecer a Pipa que a ideia ganhou força mesmo e começamos a fazer planos e pesquisas.

Demorou um pouco. (2.031 dias desde aquela noite do amor à primeira vista, para ser exata, mas quem está contando?) Tivemos alguns contratempos no meio do caminho e precisamos adiar o sonho. Mas vou te dizer:

Tudo valeu a pena.

A busca por um cantinho pra chamar de nosso continua, e não está sendo fácil. Já vimos vários imóveis por aqui e até em João Pessoa, que também era uma possibilidade pra gente, já que é tão pertinho e todo mundo fala tão bem de lá. Adoramos o que vimos e sei que seríamos muito felizes naquela cidade, com mais estrutura e mais opções. Aí eu volto pra cá, saio pra andar na rua à noite e…

Aquela emoção do primeiro dia volta com tudo. Não existe nada igual.

Durante o dia as pessoas vão estar espalhadas pelas pousadas, pelas praias, pelos restaurantes, fazendo passeios mais distantes talvez. Mas quando chega a noite, todo mundo se aproxima, todo mundo se reúne. Quem tá no hostel e quem tá nos bangalôs de luxo; quem tá de Airbnb e quem tá no resort; quem já vai voltar pra sua cidade de carro e o povo local; brasileiros e estrangeiros; gatos e cachorros de rua…

Todos percorrem os mesmos espaços democraticamente e fazem essa mistura linda que se vê a partir do entardecer por aqui. É tudo meio simples, meio tosco, meio engraçado, meio hippie. Totalmente alto-astral, totalmente coração, totalmente Pipa.


P.s.: Não tivemos mais perrengues (amém!), mas tem tanta coisa acontecendo (visitas a imóveis, frila, faxina, pausa para a praia, chopinho, showzinho) que acabei demorando mais do que gostaria para postar. E infelizmente isso deve acontecer de novo.

P.s.: Ainda vivendo sem muita estrutura, com tudo temporário, o projeto vida minimalista segue devagar. Temos feito comida em casa e reduzimos bem o consumo de carne (já era um desejo nosso e aqui não encontramos muitas opções de qualidade). Estamos faxinando a casa com produtos mais naturais (aquele sabão caseiro que mencionei no post anterior e também vinagre e bicarbonato de sódio). E vou deixar para falar sobre cuidados pessoais na próxima vez.


“Já me fiz a guerra por não saber
Que essa terra encerra o meu bem querer
Que jamais termina o meu caminhar
Só o amor me ensina onde vou chegar…”

Trecho da música “Andança”, composta por Paulinho Tapajós, Edmundo Souto e Danilo Caymmi, e eternizada por Beth Carvalho

Padecendo no paraíso

Ou como estão sendo os primeiros dias. Ou minha versão de:

Isso a Globo não mostra.

Chegamos na quinta-feira com todas aquelas malas em nossa casinha provisória. (Alugamos um flat mobiliado por dois meses, enquanto procuramos um lugar para morar em definitivo.) Mas quando abrimos a porta… oi? Não foi este apartamento que reservamos. Eu tinha visto por fotos e me programado pra ele. No atual não havia armários no banheiro, nem guarda-roupa, além de a geladeira ser bem pequena.

Falei com o proprietário e resolvemos o mal-entendido, mas o flat reservado de fato só seria liberado na terça. Ou seja: nada de desfazer as malas até lá. Ok, vamos exercer o minimalismo desde já: usar o mínimo de coisas, repetir roupa e sandália, beleza.

Sem que isso nos abatesse, fomos dar uma volta e pegar o pôr do sol na praia do Centro. Mas que praia? A maré estava altíssima e não tinha faixa de areia. E que pôr do sol? O sol estava atrás de muitas nuvens e não ia dar pra ver nada. Mas, ei, showzinho no bar de frente pro mar! Woohoo! Reggaezinho de leve pra nos dar as boas-vindas, petiscos deliciosos, água de coco… E um susto.

Estou lá relaxadona quando vejo um funcionário um pouco à frente da nossa mesa lutando contra alguma coisa com a vassoura. Ah, deve ser uma barata, normal. Só que a luta estava demorando um pouco… que raio de barata é essa? Olhei por debaixo da mesa e uou! Dei um salto pro lado quando percebi que a barata na verdade era a maior aranha que eu já vi na vida! E olha que eu morei em Petrópolis e já vi muito bicho grande e bizarro. Mas esta parecia uma daquelas australianas de tão grande, envolvendo a vassoura com as patas peludas… Pense num pavor!!!

Aranha colossal devidamente removida, continuamos a assistir o show, concentração comprometida, obviamente, mas, deixa pra lá…

Eu tô na Pipaaaaaa!

Passeamos pelo centrinho, espantados por ver como a cidade está cheia na tal baixa temporada. Mas o dia foi puxado e eu estava mesmo era doida pra me jogar na cama e descansar. Rá. Isso se os vizinhos deixassem. Um grupinho estava com o som na maior altura, berrando sem parar, e assim permaneceu até altas horas da madrugada.

Sério, esse lugar tá me testando.

A gente já tinha se hospedado no mesmo lugar ano passado, fora da baixa temporada, e não teve problemas. Aí, vendo uns grupos locais no Facebook, eu entendi tudo. No sábado ia rolar nada menos que UMA RAVE. A cidade estava cheia por causa disso — e cheia de gente especialmente barulhenta, né.

No sábado precisávamos ir à praia: tirar a zica e lavar a alma. E assim fizemos. Passamos o dia na praia do Amor, que, normalmente agitada, estava linda e maravilhosa. E ainda bem que aproveitamos…

Porque domingo, segunda e terça choveu horrores. E andando pra lá e pra cá descobrimos o único trecho que realmente ficava alagado depois de a chuva parar: a parte da rua em frente ao nosso prédio.

Juro.

Eu poderia estar postando só sobre o lado bom disso tudo aqui, mas se podemos dar umas risadas com as derrotas, por que não? Não me aguento. Vocês são como eu, sempre desconfiam daqueles relatos de experiências perfeitas e irretocáveis? Pois aqui não, meus amigos!

Aqui é vida real!

Ontem finalmente nos mudamos pro apartamento combinado e estamos tentando montar alguma rotina enquanto visitamos possíveis lugares para morar. Estamos caminhando bastante, tomando muita água de coco e absorvendo toda a vitamina D necessária.

Ah, e hoje fiz meu primeiro sabão líquido caseiro, firme na missão de usar produtos mais naturais para os cuidados com a casa — e também reduzir o plástico. Segui a receita da Cristal, do blog Uma vida sem lixo. Foi muito fácil. Deem uma olhada aqui.

Encerro pedindo desculpas pelas falhas no blog. Nunca mexi nisso e estou aprendendo aos poucos. Para terem uma ideia, eu resolvi domínio, hospedagem, escrevi o primeiro texto e postei, tudo num dia só. Então ainda estou descobrindo como divulgar melhor e como facilitar a vida de quem quer acompanhar os posts.

Por enquanto, vocês podem se inscrever aqui no site para receber o aviso por e-mail quando tiver texto novo. Ou seguir a página Projeto Vida Minimalista no Facebook para acompanhar as atualizações e as fotos enquanto não crio a conta no Instagram.

E aproveito para agradecer pelas visualizações, curtidas e comentários. Muito legal esse feedback!

“Feito é melhor que perfeito.”

lema de Sheryl Sandberg, COO do Facebook e autora do livro Faça acontecer

4 malas e uma saudade que não caberia em lugar algum

E então chegou o tão esperado dia 17 de maio, o dia da mudança, da viagem…

E das últimas despedidas.

Se eu só pensasse no que estou deixando, jamais conseguiria fazer isso. Como achar que qualquer coisa é melhor do que ter sua família e seus amigos por perto, ao alcance de um Uber?

Não, não dá para fazer esse balanço. É uma conta que simplesmente não fecha.

E por isso eu não consegui viver a euforia da mudança para o projeto de vida minimalista. Eu só consegui viver a correria das últimas pendências (eu vou ter que pagar excesso de bagagem?) e a saudade, doída e chorosa.

Passei pela área de embarque achando que estava segurando muito bem, mas foi eu ver o tchauzinho meio aéreo do meu sobrinho de 3 anos pra eu virar o corredor e o choro desabar com toda a força.

Fui encarar o raio X enxugando as lágrimas, pensando se estava dando algum motivo para os agentes desconfiarem de mim… rs… (Quem assiste às séries Aeroporto, do National Geographic, sabe do que estou falando.) Mas deu tudo certo, eles não me pararam.

Só minhas, foram 2 malas grandes despachadas, com roupas e calçados. Isso porque não levei as roupas de frio.

Ainda muito distante de uma minimalista exemplar, não é mesmo?

Confesso que foi duro reconhecer esse fato. Seria muito mais fácil já estar mais leve (as coisas do meu marido couberam todas em 1 mala; a quarta mala foi só de roupas de cama e banho), mas foi o que deu pra fazer. Como autoconcessão, sei que há alguns anos o peso teria sido bem maior…

Quando cheguei ao aeroporto de Natal, as mensagens começaram a pipocar. E foi nessa hora que eu vi como é enorme o apoio que estamos recebendo. São parentes, amigos, ex-colegas do trabalho, amigos dos amigos e até mesmo os primeiros leitores do blog. Então aproveito a deixa para agradecer a todos vocês pela energia positiva que mandaram pra gente, pela força e pelos desejos felizes.

E pela parceria. Sim, porque a ideia do blog é esta, irmos fazendo essa mudança juntos, aprendendo e compartilhando.

Partiu Pipa!

O minimalismo de cada um

O estilo minimalista propõe uma redução ao mínimo necessário. Ele surgiu no século passado influenciando sobretudo as artes plásticas e o design, e só mais recentemente o termo tem sido empregado para falar de estilo de vida.

Eu não sei bem quando comecei a prestar mais atenção nessa ideia, mas acho que ela bateu com força em 2015, quando passei a seguir o blog do casal Eduardo e Mônica. Um ano antes eles tinham largado tudo para viver como nômades pelo mundo e, no meio dessa aventura, escreviam posts muito inspiradores não só sobre os lugares incríveis que conheciam mas também sobre a vida minimalista que levavam.

Também em 2015, trabalhei na produção do livro Essencialismo, que fala da busca por menos, só que com uma abordagem mais voltada para o trabalho. Era como se as ideias fossem aos poucos se somando e me deixando mais curiosa sobre esse outro modo de levar a vida. E, se em determinado momento o que eu mais consumia na internet eram blogs sobre moda, fui, sem perceber, substituindo-os pelos textos sobre vida minimalista.

Em 2017, percebi que a “onda minimalista” era bem maior do que eu imaginava. Foi quando assisti na Netflix ao filme Minimalism: a documentary about important things (Minimalismo: um documentário sobre as coisas importantes), lançado em 2016.

De repente tava todo mundo falando sobre isso. A proposta de uma vida com menos excessos e mais experiências estava de fato conquistando adeptos pelo mundo todo. Joshua Millburn e Ryan Nicodemus, os minimalistas do filme, dizem ter alcançado mais de 20 milhões de pessoas pelo mundo por meio de seus blogs, livros, podcasts e do próprio documentário.

No Brasil o assunto pode ter ganhado mais força nos últimos anos até por conta da crise econômica, que nos obrigou a repensar muitos hábitos de consumo. Mas pra muita gente acabou sendo mais que uma necessidade ou tendência passageira e, em vez disso, virando uma opção de vida:

Qualidade em vez de quantidade.

[E aqui, mais uma vez, faço aquela ressalva: isso no caso de quem tem opção! Para muita gente “viver com o mínimo” é uma realidade imposta, e não um luxo.]

De qualquer maneira, apesar de muitos, como eu, terem simpatizado inicialmente com o minimalismo por uma questão de estética ou de melhorar a organização, os benefícios podem se estender por praticamente todos os âmbitos da vida.

Em primeiro lugar, optar por viver com menos acende uma luzinha sobre o consumo consciente. A partir do momento em que você se propõe a reduzir todos os aspectos da vida ao essencial, ao que realmente tem mais importância para você, tende naturalmente a se livrar dos excessos que roubam seu tempo e não dão o devido retorno. Por exemplo, depois que eu fiz a mágica da arrumação da Marie Kondo e vi quanta coisa inútil tinha acumulado, passei a pensar duas vezes antes de sair comprando outros itens.

Uma consequência imediata disso é economizar. Sim, porque tudo que compramos e está agora esquecido num cabide ou numa prateleira custou dinheiro, fora o tempo que levamos trabalhando por ele. Então, se eu não estou precisando de mais uma calça jeans, não compro. Se meu celular me atende bem, não preciso trocar pelo último lançamento. Meu cartão de crédito agradece.

Outra consequência é reduzir o impacto ambiental. Cada objeto que adquirimos precisou de matérias-primas (renováveis ou não) e energia (limpa ou não) para ser fabricado. E, depois de ser utilizado (ou de ficar encostado num canto pegando poeira), vai gerar outra preocupação ao ser descartado — é de material reciclável? Tem chance real de ser completamente reciclado? Vai poluir as águas e o solo? Se eu deixo de levar algum produto supérfluo pra casa, estou ajudando a preservar os recursos naturais do planeta.

Em um mundo que prega a ostentação como ideal de vida, ter essa consciência — diariamente — exige esforço.

Nos grupos do Facebook sobre minimalismo vejo muita gente comentar sobre um outro aspecto interessante: os relacionamentos. Parece que, nesse movimento para nos cercarmos do que nos faz bem e nos livrarmos do que só rouba dinheiro, tempo e atenção, muitas “amizades” vão ficando pelo caminho também. O famoso “Se não soma, some!”.

Eu sempre desconfio das posturas radicais demais, mas confesso que já começo a sentir esse efeito, sim. Se antes eu me forçava a procurar determinadas pessoas, mesmo que não me identificasse mais tanto com elas ou saísse mais incomodada que feliz do nosso encontro, hoje me preservo mais.

E também tem gente exercitando o minimalismo na alimentação. Se podemos comer menos e ainda assim viver com saúde, será que não seria uma questão a se pensar? Ou aí já é pegar pesado?

Uma proposta minimalista pode abarcar todos os aspectos da nossa vida ou só alguns. Como acontece com toda tendência, é importante não achar que ela é a solução para todos os males e que não há felicidade fora dela. Além disso, para ser eficaz, essa proposta deve ser personalizada e atender aos seus interesses, que pode não ser os mesmos que os meus, e tudo bem.

Apesar de me identificar demais com uma vida minimalista, fiz questão de incluir o “projeto” no nome do blog, porque é exatamente o que ele é para mim: algo em desenvolvimento, em construção. Sigo aprendendo um pouco mais a cada dia com as minhas leituras e aplicando aos poucos no meu dia a dia, de uma maneira que me deixe confortável e não me gere mais estresse, ou teria justamente o efeito contrário ao que estou buscando.

A minha vida minimalista envolver ter menos coisas, consumir de forma consciente, viver em um espaço menor, trabalhar em projetos que tenham significado para mim, me cercar de boas energias e ter mais tempo para o que me faz feliz.

E a sua?

Encontre um minimalismo que funcione para você. Que não gere incômodo, mas que o liberte levando em consideração seus valores, desejos, paixões e pensamento racional. (…) Você começará a remover as coisas desnecessárias de sua vida. E, quando fizer isso, encontrará espaço para intencionalmente promover as coisas que mais valoriza e eliminar o que faz você desviar delas.

Joshua Becker, do blog Becoming Minimalist

Início da mudança

MartinaMang por Pixabay

Há quatro anos surgiu na editora onde eu trabalhava o livro que me ajudaria a dar o primeiro passo concreto na busca por uma vida mais simples e mais leve. Sim, acreditem: a pequenina e delicada Marie Kondo me deu uma sacudida e um empurrão daqueles bem fortes.

A especialista em arrumação criou o método KonMari, que sugere lançar um novo olhar sobre todos os seus pertences e manter apenas aquilo que te traz alegria. Ela já tem dois livros publicados no Brasil e também estreou em 2019 uma série no Netflix.

A mágica da arrumação me inspirou a colocar “ordem
na casa” — e nas ideias.

Só de ouvir os comentários da minha colega que estava coordenando a produção do livro eu já ficava inquieta. Antes mesmo de ler, eu fiz uma limpa lá em casa e separei bolsas e mais bolsas de itens que não me faziam feliz. Doei muita coisa e consegui vender outras. Após a leitura, tive que organizar um segundo bazar. A tralha parecia não ter fim!

Eu não sou uma pessoa naturalmente desapegada. Muito pelo contrário. Guardava tudo pra sempre. Durante a infância e a adolescência, eu sofria com a frustração de nunca ter as coisas que mais queria ter, de brinquedos a roupas. O orçamento da família sempre foi muito enxuto, então não sobrava dinheiro pra casa da Barbie, pra “Não esqueça a minha Caloi”, pra caixa de lápis de cor mais cobiçada, pra calça jeans da moda, pra mochila de marca…

Fui crescendo e sonhando com o dia em que eu alcançaria a tal independência financeira, quando faria o que eu bem entendesse com o dinheiro, compraria o que quisesse na hora que quisesse — mesmo que fosse parcelado no cartão.

Uma boa educação financeira e minha natureza pão-dura me ajudaram a sempre economizar e não gastar mais do que ganhava. E aos poucos cheguei aonde queria: tinha o meu próprio dinheiro e podia gastar com as roupas e “brinquedinhos” que eu quisesse. E então eu conquistei a felicidade…

Só que não.

O que eu conquistei foram um guarda-roupa abarrotado, cômodos com muitas coisas que eu nem usava e, se você pensar bem, até um apartamento maior do que um casal precisa para viver — fora a limpeza e manutenção disso tudo, a responsabilidade, o estresse das coisas por fazer.

Ok, isso soa como um problema de pessoa privilegiada. E é mesmo. Quem tem mais do que precisa ter não está passando necessidade, algo bem diferente da maioria da população brasileira. Mas acredito que exista uma responsabilidade social em reduzir o consumo.

Esse meu despertar para o “menos é mais” me levou a ler muito sobre minimalismo (e sobre isso falarei melhor em outros posts), mas também a me preocupar cada vez mais com sustentabilidade. Para mim, as duas coisas estão relacionadas. Se você consome com moderação, ajuda a poupar recursos naturais e gera menos impacto no planeta.

E uma vez que essas ideias fazem sentido na sua cabeça, olha, é um caminho sem volta. Eu me vi querendo reduzir tudo, gerar menos lixo, repensar a vida como um todo e me ater só ao que fosse necessário e ao que me fizesse feliz de verdade.

E eu podia ser feliz com menos.

Eu podia possuir menos coisas, consumir com mais consciência, ocupar um espaço mais adequado. Eu podia ganhar menos, porque ia gastar menos. Eu podia trabalhar menos para ter mais da coisa mais valiosa desse mundo: tempo.

Mas eu não teria como fazer isso tudo sozinha. Felizmente, meu marido, um minimalista nato, também viu sentido nessa mudança de estilo de vida e fizemos tudo juntos. Deixamos nosso apartamento, nossos empregos e (quase toda) a nossa tralha e vamos levar com a gente só aquilo que couber em algumas poucas malas.

Marie Kondo ficaria orgulhosa.

“Antes de assumirmos o controle sobre nossas coisas, precisamos mudar a relação que temos com elas. As coisas existem para nos servir, e não o contrário.”


Francine Jay, do livro Menos é mais


P.s.: Para saber mais sobre o trabalho da Marie Kondo:
– série Ordem na casa
– livro A mágica da arrumação
– livro Isso me traz alegria