Vaidade ou publicidade?

uma tampa de esmalte dourado apoiada na horizontal sobre uma superfície reflexiva

Outro dia vi a Fe Cortez, idealizadora do movimento Menos 1 Lixo, dizendo no Instagram que não pintava as unhas havia um ano. Isso me fez lembrar um pouco de todos os questionamentos que já me fiz sobre minimalismo, sustentabilidade e cuidados pessoais.

Não ouso dizer que não sou uma pessoa vaidosa. Na época do colégio eu era daquelas que penteava o cabelo e passava batom na hora do recreio. (Pera aí, daquelas não — acho que eu era a única mesmo.) Chorei quando tinha uns 12 anos e o cabeleireiro fez um corte horroroso, quase Chitãozinho & Xororó.

Sim, eu gosto de me arrumar e me sentir bonita. Mas tem certas “convenções” que nunca curti e de que estou me libertando de vez. Fazer a unha, por exemplo. Cara, que porre! Minhas unhas das mãos parecem um papel, crescem todas quebradiças, e a cutícula é superfina. Quando comecei a ir à manicure, parecia que pagava pra sofrer. Quase sempre saía com algum machucado. Tinha que achar uma profissional supercuidadosa e só fazer com ela. Mas, como nunca gostei do processo, eu ia no máximo uma vez por mês, ou quando tinha algum evento.

Aí fui espaçando mais as visitas à minha querida Irene. E também a não querer esmalte de cor forte, mas de alguma que deixasse aparecer menos que eu estava com o esmalte lascado (ah, sim, porque pra completar comigo o esmalte nunca durou mais que dois dias). Aí passei a só fazer francesinha. E depois me enchi de vez: só base. Ah, e adivinhe o que já fiz nas unhas desde que cheguei aqui? Nada! Só cortar e lixar.

E tô amando.

Vendo a explicação da Fe Cortez para não pintar mais as unhas, me identifiquei totalmente. Tipo, pra quê? Pra gastar dinheiro? Pra colocar produtos químicos pesados nas minhas unhas já frágeis? Pra pegar uma doença? Pra contribuir pra poluir o planeta? Pra atender algum padrão social? Pra agradar a quem?

Quando a gente para pra pensar nesses hábitos que parecem tão naturais mas que no fundo são impostos de alguma forma por indústrias bilionárias, eles passam a não fazer mais sentido. Se eu não gosto e não sinto falta, realmente não tenho por que fazer isso. Resistência!

E é também por isso que não pinto o cabelo. E sim, tenho uma porção de cabelos brancos já. Eu comprava tonalizante e o negócio ficava lá no armário até quase vencer e eu dar para outra pessoa. Cheguei a comprar henna, por ser mais natural, mas não durava muito e eu achava que não valia o trabalho, além de estar gerando um novo tipo de lixo na minha vida. Mais uma vez: pra quê? Pra quem? Sem uma boa resposta, parei também.

Aliás, foi mesmo por causa dos cabelos que comecei a ganhar um pouco de conscientização em torno dos cosméticos. Há alguns anos descobri algumas técnicas mais naturais para tratar os fios e passei a seguir o low poo, que é optar por produtos mais suaves e menos poluentes, ou seja: sem sulfato, petrolato, parafina, parabenos e óleo mineral. Além de aceitar meus cachos e cuidar melhor deles, jogo menos porcaria nas águas que vão parar nas estações de tratamento (na melhor das hipóteses) ou direto nos rios (na pior).

Muita gente já radicalizou e só usa produtos naturais nos cabelos, mas infelizmente ainda não cheguei a esse nível. A juba é cheia e, se eu não tacar creme, fica parecendo uma vassoura. Seguindo a ideia do “minimalismo de cada um”, ainda preciso disso para me sentir bem comigo mesma enquanto não descubro uma forma melhor e mais sustentável.

Trabalhar em casa ajuda a gente se libertar de algumas necessidades que podem ser consideradas fúteis. Maquiagem é outro bom exemplo. Há muito tempo que eu só uso filtro solar com cor e batom. Não vejo mais necessidade de tanta “falsa perfeição”. Antes da mudança vendi um estojão de maquiagem completo da Sephora que eu pouco usei e joguei um monte de coisa fora que já estava vencida.

E perfume, gente? Nossa, eu sempre amei perfume. Mas a verdade é que é mais uma coisa dispensável. Estou poupando os que ainda tenho e pensando seriamente em não comprar mais. Já não uso mais desodorante antitranspirante, principalmente pelo mal que pode fazer à saúde. Caramba, quando é que suar deixou de ser normal? Optei pelo leite de magnésia já tem um tempo e não penso em voltar atrás. Não preciso ter um cheiro artificial na suvaca pra ser feliz!

Parece que a indústria da beleza vai nos escravizando e nem percebemos. Quantos procedimentos, produtos fabulosos, novas invenções! Quanto dinheiro jogado fora! Sim, você já parou para pensar em quanto gasta com “beleza” todo mês? Em tudo que poderia fazer com esse dinheiro acumulado em um ano?

Enfim, acho que vale a reflexão. O assunto é complexo e polêmico, cada pessoa pensa de um jeito, as opções são inúmeras e ainda tenho muito que aprender, admito. Mas já me sinto capaz de dar alguns passos rumo a uma vida mais sustentável e achei que poderia compartilhar algumas descobertas com quem se interessa pelo assunto.

Tem gente superavançada nessa área e recomendo fortemente que sigam o trabalho da Cristal Muniz, do Um ano sem lixo, e da própria Fe Cortez, que mencionei no início.

E querendo trocar ideias, fiquem à vontade. Melhor que conversa de salão! 😉

“Meu olhar em festa se fez feliz”

Desde a primeira vez que pisamos na Pipa, naquele distante outubro de 2013, vivemos um caso de amor com este lugar — e sem data pra acabar. Vou contar como tudo começou.

Depois de decidir onde passaríamos as férias daquele ano e de muita pesquisa, consegui ótimas passagens para Noronha, usando apenas milhas (bons tempos em que se conseguia ir pra lá com 10 mil pontos). Então, já que estávamos pelo Nordeste, achei que seria bom prolongar a viagem e marquei a volta por Natal, para ficar cinco dias na Praia da Pipa e dois na capital antes de voltar ao Rio.

Vivemos uma semana inesquecível em Fernando de Noronha, o lugar mais extraordinário do Brasil na minha opinião. Nenhuma foto ou filmagem faz justiça ao que você encontra lá e vê com os próprios olhos. Nada te prepara para aquelas paisagens. São praias de uma beleza absurda, total tranquilidade, harmonia e muito respeito à natureza.

Tá batido, é cafona demais, mas é o melhor conselho que vou te dar hoje: Noronhe-se. Não arrependa-se. E depois me conte-se.

Conhecemos pessoas ótimas e percebemos como é bom viver desarmado, sem medo de nada nem ninguém. Talvez hoje eu tivesse um pouco de medo dos tubarões (aquele caso do rapaz que teve parte do braço arrancada aconteceu em 2015), mas naquela viagem eu praticamente ia atrás deles, tentando fotografar uns pequenos que passavam por mim na Baía do Sueste.

Ficamos realmente tristes na hora de ir embora. Aí você imagina: o que pode superar aquilo tudo que vimos por lá? Nada, né? Não tem como.

Então pegamos o voo pra Natal e o transfer pra Pipa. Chegamos já à noitinha e o motorista entrou na ruazinha principal. Eu olhava pra um lado e pra outro e pensava: Que lugar é esse? Uma rua de mão única, com lojinhas e restaurantes de fachadas simples, muita gente andando sem pressa, música ao vivo em vários cantos. Me bateu alguma coisa por dentro.

É aqui. Achei o meu lugar.

Eu não tinha visto nem sequer uma praia, mas sabia que tinha algo muito especial ali, não me pergunte como nem por quê. O mais incrível é que eu não falei nada pro meu marido, sentado ao meu lado no banco do carro. Mas conversando depois ele me contou que sentiu a mesma coisa.

Só no dia seguinte faríamos os passeios e descobriríamos as praias, os golfinhos, as falésias, as lagoas, o pôr do sol, a gente, os camarões, os sorvetes, a nossa banda de rock favorita, a vibe. Foi uma paixão tão forte que acabamos cancelando as diárias em Natal e prolongando a estadia na Pipa até o dia do voo de volta. (Aliás, só fomos conhecer Natal na terceira vez que viemos pra esses lados.)

Eu sempre quis sair do Rio e me imaginava morando praticamente em toda cidade legal que conhecia ou que via pela TV. Já pensei em ir pra Paraty, Floripa, Penedo… Mil lugares fora do país também. Eu sabia que precisava dessa experiência. Mas foi depois de conhecer a Pipa que a ideia ganhou força mesmo e começamos a fazer planos e pesquisas.

Demorou um pouco. (2.031 dias desde aquela noite do amor à primeira vista, para ser exata, mas quem está contando?) Tivemos alguns contratempos no meio do caminho e precisamos adiar o sonho. Mas vou te dizer:

Tudo valeu a pena.

A busca por um cantinho pra chamar de nosso continua, e não está sendo fácil. Já vimos vários imóveis por aqui e até em João Pessoa, que também era uma possibilidade pra gente, já que é tão pertinho e todo mundo fala tão bem de lá. Adoramos o que vimos e sei que seríamos muito felizes naquela cidade, com mais estrutura e mais opções. Aí eu volto pra cá, saio pra andar na rua à noite e…

Aquela emoção do primeiro dia volta com tudo. Não existe nada igual.

Durante o dia as pessoas vão estar espalhadas pelas pousadas, pelas praias, pelos restaurantes, fazendo passeios mais distantes talvez. Mas quando chega a noite, todo mundo se aproxima, todo mundo se reúne. Quem tá no hostel e quem tá nos bangalôs de luxo; quem tá de Airbnb e quem tá no resort; quem já vai voltar pra sua cidade de carro e o povo local; brasileiros e estrangeiros; gatos e cachorros de rua…

Todos percorrem os mesmos espaços democraticamente e fazem essa mistura linda que se vê a partir do entardecer por aqui. É tudo meio simples, meio tosco, meio engraçado, meio hippie. Totalmente alto-astral, totalmente coração, totalmente Pipa.


P.s.: Não tivemos mais perrengues (amém!), mas tem tanta coisa acontecendo (visitas a imóveis, frila, faxina, pausa para a praia, chopinho, showzinho) que acabei demorando mais do que gostaria para postar. E infelizmente isso deve acontecer de novo.

P.s.: Ainda vivendo sem muita estrutura, com tudo temporário, o projeto vida minimalista segue devagar. Temos feito comida em casa e reduzimos bem o consumo de carne (já era um desejo nosso e aqui não encontramos muitas opções de qualidade). Estamos faxinando a casa com produtos mais naturais (aquele sabão caseiro que mencionei no post anterior e também vinagre e bicarbonato de sódio). E vou deixar para falar sobre cuidados pessoais na próxima vez.


“Já me fiz a guerra por não saber
Que essa terra encerra o meu bem querer
Que jamais termina o meu caminhar
Só o amor me ensina onde vou chegar…”

Trecho da música “Andança”, composta por Paulinho Tapajós, Edmundo Souto e Danilo Caymmi, e eternizada por Beth Carvalho